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Mostrando postagens de 2017

ADEUS CANÇÃO DE NINAR

Era domingo e eu tinha acordado cedo pra arrumar a casa pra te esperar. Lembro-me de estar ansiosa pra tocar pra você a música que eu tinha feito, era um pedido de desculpas por ter recusado seu beijo no fim de semana anterior.
... mas você nunca chegou pra ouvir...
O telefone tocou e em algum lugar dentro de mim eu sabia que as palavras que viriam a seguir derrubariam as estruturas de todo meu mundo. Eu não respondi, eu não fui te ver, eu não deixei meu quarto por dias, eu quebrei o violão, eu rasguei as músicas, mas tudo que eu queria era me rasgar e extinguir a dor.
Choveu no dia que você partiu... dentro e fora de mim...
Ninguém realmente entendia a proporção da minha reação porque ninguém realmente sabia o significado de nós e eu não tinha forças pra explicar. Estávamos quase lá. Eu sempre vou me perguntar se teria doído mais ou menos saber o gosto do seu beijo, se ele seria um alento ou mais um fantasma pra me assombrar.
Fecho os olhos e nove anos depois ainda consigo escutar clarame…

FLORES PRA TE ENCONTRAR

Eu queria ter chegado antes da chuva de verão. Queria ter chegado quando ainda havia tempo pra semear no seu solo fértil, no seu abraço quente, em suas mãos abrasivas.
Queria ter chegado com a minha cabeça melhor e com menos palavras atropeladas, queria que você visse meu melhor lado. Não que eu seja particularmente boa, mas definitivamente eu sou melhor que isso que você viu/vê.
Eu queria ter chegado mais devagar, queria ter tido tempo de te deixar se abrir, queria contar sobre tudo que eu aprendi, queria saber sobre tudo que te construiu.
Queria dizer que eu vejo tudo que você não disse, e que eu sei que você percebeu mais do que o que eu falei.
Ainda assim, eu queria contar da calmaria que eu senti quando você se aproximou, dizer que sinto sua falta como se te reconhecesse não só dessa vida, mas de muitas outras, e estivesse a muito a sua espera.
Talvez ainda não seja nessa vida o momento, mas tudo bem, eu não tenho pressa.
Em algum momento eu sinto que saberei das suas profundidades q…

NOSSAS FALTAS

Eu sinto sua falta 
Sinto sua falta, mas não quero me explicar 
Sinto sua falta, mas não quero explicação
Sinto
Sinto sua falta, mas eu realmente me cansei 
Cansei de ter sempre um nó entre as verdades
Cansei de não saber mais o que é verdade 
Cansei da falta de sentido dos seus porquês 
Cansei dos meus próprios porquês também 
Eu sinto sua falta, mas matá-la seria acordar monstros que eu prefiro manter adormecidos...

PRIMEIRA VEZ (DE NOVO)

Eu queria ler o meu livro favorito pela primeira vez uma outra vez. Eu queria a sensação de experimentar minha comida favorita pela primeira vez, a constatação de "eu comeria só isso pelo resto da vida". 
Queria voltar na minha primeira viagem longa e sentir a liberdade da estrada entrando pelas minhas veias, queria ter aproveitado melhor esse momento. 
Eu queria ouvir minhas músicas favoritas pela primeiríssima vez e sentir que a música entra pelo meu coração e não pelos ouvidos como parece ser a lógica.
Queria hoje, mais que todos os outros dias aquele abraço pela primeira vez de novo, a sensação de abrigo. A sutileza do toque. A ausência de intenções. 
Eu amaria reviver aquele primeiro passeio a cavalo, a agitação das borboletas no estômago, a despreocupação em sorrir com coisas simples. 
E principalmente, eu daria qualquer coisa pela inocência de não saber (em cada um dos meus seis sentidos) o peso e as consequências de ter sido partida quando eu sequer tinha noção do q…

AINDA NÃO CHEGAMOS AO XEQUE-MATE

“Você não sabe ser o rei do xadrez do jogo nem de vez em quando... Às vezes você precisa deixar de se importar tanto, sendo uma das peças que mais luta no jogo e deixar alguém fazer isso por você”.
Lembro em alto e bom som a moça que me disse que eu não sabia ser cuidada, que eu me deixava de lado demais por me importar muito com os outros, ela me disse que pessoas assim são como peões, ficam à frente da situação e são os primeiros a receberem os golpes do adversário, são os primeiros a serem sacrificados, os primeiros a enfrentar a morte.
Ainda posso escutar com clareza o que a moça disse e o quanto eu neguei suas palavras dizendo que as coisas não eram assim e que eu não era essa pessoa que morre pelos outros. Ao ouvir minhas palavras no replay agora, elas soam tão vazias que nem eu mesma consigo me comprar.
Nesse jogo da vida eu sou sim mais um peão como tantos outros, estou muito longe de ser um rei e assistir enquanto lutam por mim, enquanto me tiram do campo de batalha ilesa ou re…

FRACTAIS DE MIM

Paredes em branco borradas de passado Cinzas sobressaindo dos cantos de cada cômodo Detalhes que camadas e camadas de tempo não apagam Rachaduras em minha pele que não sangram mais Mas que ainda são um lembrete do que o fogo é capaz
Mesmo que em tardes calmas desprovidas de luz solar Eu quase me sinta como se não estivesse em remendos Em algum lugar dentro dos meus olhos ainda mais obscuro Eu sei que não posso reviver minha altivez em secar meus olhos Como se nada pudesse me ferir As lágrimas bateram e quebraram essa parte de mim
Por mais que eu agora esteja sã e salva Eu sei que estou curada, mas não estou intacta Sou como um daqueles quadros de Salvador Dalí Um conjunto de relógios derretidos marcando tempos destintos Sou aquele encontro surreal de beleza e caos...

TIC-TOC

Quanto tempo é preciso para curar uma hemorragia interna?
Quantas batidas o ponteiro do relógio precisa dar até que uma saudade se torne trivial?
Quantas baterias vão ser trocadas antes que os ritmos batam em sincronia e as importâncias se equiparem?
Quanto de óleo vai cair das engrenagens até que elas estejam no ponto pra recomeçar a pulsar normalmente?
Quanto?
Quanto tempo?
Eu estou ficando cada vez mais com menos tempo...