"A gente que ia buscar o dia"

Aos 5 anos de idade eu tive o meu primeiro livro favorito, foi na verdade o primeiro livro que eu li sozinha, sem ninguém me ajudar ou ler pra mim. Naquela época eu fui à primeira aluna da sala a aprender a ler por pura teimosia, logo eu que no primeiro dia de aula não queria ficar na sala de jeito nenhum, minha mãe teve que ficar até a hora do recreio lá porque até então eu estava decidida que não queria saber daquela criançada chorando e puxando os cabelos umas das outras. Só que no recreio minha mãe passou comigo pela biblioteca e aquela sala me ganhou, falei que eu ia ficar só porque eu gostava da sala cheia de livros, que ela podia ir.

O motivo deu querer voltar para casa era muito simples, era uma pequena mesinha que tinha na sala com os livros da minha irmã, e nas tardes, quando ela ia para aula e minha mãe cuidar da casa eu finalmente podia colocar minhas mãos nos livros. E o motivo deu ter resolvido ficar na escola foi porque aquela sala tinha muito mais livros que na mesinha da minha casa e eu queria ler cada um deles.

Voltei pra sala toda serelepe e perguntei para professora se eu podia ficar na ‘sala de livros’, ela disse que não, porque pra ficar lá ou pegar algum livro de lá eu precisava de duas coisas, a primeira era saber escrever meu nome na ficha que eu teria que fazer para pegar livros e a segunda era ler. O modo como ela falou soou em tom de desafio como se eu fosse demorar muito pra poder entrar lá, voltei pro meu lugar decidida a ler e escrever pra poder entrar na biblioteca.

Meses depois (de muitas dificuldades e muitas broncas por escrever com a mão esquerda e com o caderno virado) eu consegui, ainda lembro o cheiro de poeira daquela sala que parecia gigante aos meus olhos infantis, fiz minha ficha com minha letra que se hoje já não é muito bonita nem vou comentar como era em 1997.

Passei pelas prateleiras e o primeiro livro que eu puxei era um com uns bonecos amarelos com roupas iguais e na capa eu li vagarosamente “A gente que ia buscar o dia”. Era o livro perfeito, porque eu tinha buscado o meu dia, o meu dia de entrar na biblioteca e poder pegar um dos livros, poder sentar no chão entre as prateleiras e ficar lá escondida o recreio todo, ou simplesmente pegar meu livro e subir numa árvore pra fugir das outras crianças.

Fiquei mais de um mês pegando esse mesmo livro, até que a moça da biblioteca resolveu me dar ele, ela disse que quase ninguém pegava ele e tinha outros dois do mesmo e eu gostava tanto, lembro que ela falou,“um presente meu para a menina dos olhos de jabuticaba” (tenho o presente até hoje inclusive).

Resumindo, a historia do livro gira em torno de uma família que madrugava todos os dias e ia pro lugar onde o sol nascia com luzes para acordar o sol, todos os dias era o mesmo ritual, até que chegou um visitante com um galo e o galo fazia a função de “acordar o sol”, mas a família ficou assustada com o galo por não saber o que ele comia, se ele comia gente, ou o quê era aquele bicho, decidiram por fim mandar o galo embora e voltar a buscar o dia todos os dias.

O que me intrigava nessa historia quando criança era que eles não deram chance para o desconhecido, porque aquele galo podia facilitar a vida deles, eu pensava “que bobos”. Hoje, quase 20 anos depois, eu finalmente entendo a decisão, ir buscar o dia era um ato que eles amavam fazer, iam cantando todos os dias, era um oficio que os unia em determinado ponto do dia e por mais que algo pudesse ser mais fácil, ainda assim, aquele momento era importante, a cada dia, buscar o dia juntos. E às vezes eu penso: Quantas vezes a gente deixa o que a gente gosta por algo mais fácil e desisti de buscar o nosso dia? Quantas vezes o dia passa e a gente já não pode mais buscar?


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