"Eu já morri!"

Pensando sobre começos e fins, me lembrei de uma certa fala em um filme que eu gosto um bocado. No inicio do filme em questão, Elektra (personagem que dá nome ao filme), prestes a matar um homem diz a ele que "a morte não é tão ruim", o moço por sua vez questiona "como você sabe?" e ela responde prontamente "EU JÁ MORRI!". Eu sei muito bem que a personagem quis dizer morte literal, mas ao longo do tempo, eu fui percebendo que há mais de um tipo de morte, e percebendo isso, descobri que eu já morri também. 

Sim, eu acredito que alguém pode morrer estando vivo, acho possível morrer varias vezes estando vivo, eu já perdi a conta de quantas vezes foram. Eu sei que você também já sentiu, aquele sentimento de fim, de não saber o que fazer com os pedaços do que sobrou, o sentimento de que não sobrou nada pra juntar, de ter um enorme zero como ponto de partida pra recomeçar e talvez acreditar piamente que é impossível recomeçar, não importa o quanto as pessoas ao redor repetiam que era só mais uma etapa da vida a se superar. 

Eu li em algum lugar (eu nunca lembro os lugares que leio as coisas) que quando alguém que amamos morre, não é esse alguém que morre, somos nós que morremos, por que para esse alguém nós deixamos de existir, mas esse alguém que morreu continua existindo dentro de nós, nas nossas lembranças. Então, eu acredito que cada vez que perdemos algo que nos era muito raro, parte de nós morre, morre a esperança. Perder a esperança em algo é morrer um pouco, é enterrar uma possibilidade, fechar uma porta. Deixar de confiar em alguém que até pouco tempo era tido como "induvidavél" é morrer mais ainda, pensar duas vezes antes de qualquer contato, perceber que não quer mais fazer contato por que qualquer palavra vinda dali não teria crédito nenhum. A desistência é morte, é um fim. E muitas vezes vem parcelado em várias vezes, vai se desistindo aos pouquinhos, morrendo mensalmente e quando se vê temos uma esperança/confiança/lembrança defunta jazendo dentro de nós.

Eu morri pra todas aquelas pessoas que me deixaram pelo caminho, aqueles amores que nunca chegaram a dar frutos ou apodreceram por falta de cuidado, aqueles "amigos" que nem lembram mais meu nome, ou aqueles que simplesmente sabem sem nenhum sentimento. Eu me lembro bem, mesmo daqueles que não faço mais questão, ou até faço mas não digo. Eu morri pra eles, mas as historias continuam, jaz aqui tudo aquilo que eu não pude apagar, tudo aquilo que eu ainda me lembro (mesmo nas distorções que o tempo faz às memorias), tudo que eu sinto falta, da parte da vida que por não mais me pertencer, morta estou (pelo menos em parte)! 

Acho impossível não ser meio morto, a morte não vem de uma vez, ela dá avisos, vão se os pedaços metafóricos de nós (aquilo que um dia damos espaço na nossa vida), até que por fim me caiam os dentes, o cabelo, a lucidez. O coração vai batendo por menos coisas tentando compensar o que falta, até que um dia (e para todo mundo esse dia vai chegar), não bate mais...

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