Eu não uso óculos...

Nunca gostei de óculos, sempre me incomodou, um acessório que apesar do muitos me dizerem necessário para melhorar minha vista, eu nunca vi (pra mim) tanto beneficio assim. Simplesmente não gosto, não me caí bem, não encaixa em mim.

Vez por outra me dizem que estou ficando meio cega, que se usar meus óculos eu vou enxergar as cores mais vivas, eu quase ponho a mão nos ouvidos e grito quando escuto tal disparate, meus olhos, enxergando cores mais vivas? Seria o inferno definitivamente. Eu já acho o amarelo solar, o laranja dourado e verde limão/neon doloridos o suficiente, seria muita tortura aumentar a intensidade de qualquer uma dessas cores ou qualquer outra.

Desculpe-me vocês que gostam de cores vivas e imagens claras, mas eu prefiro dias mais cinzas, cores mais frias, imagens um pouco apagadas e talvez levemente embaçadas, por que dói a contemplação do óbvio que todo mundo insiste em esfregar na minha cara já tão esfolada, não preciso ver as coisas com mais nitidez do que eu já vejo, não preciso sentir mais do que eu já sinto. Eu sou um pouco o moço do livro A Luneta Mágica que recebe o dom de ver as coisas como elas realmente são e resolve abdicar de tal presente.

Não é que não dê valor na beleza exibida aos meus olhos, eu realmente tenho prazeres raros ao admirar certas coisas, mas num sentido mais amplo do verbo ver, eu realmente queria poder ignorar certos tons, não preciso de cores e gestos rasgados minando a minha confiança no meu próprio conceito de visão das coisas, não preciso de uma "lente" que me diga que as cores que eu vejo estão desfocadas, eu não preciso da opinião de ninguém para constatar que tais letras não formam as palavras que eu quero ler, eu não preciso de legenda no filme em questão.

Deixo a minha visão desfocada, me deixo vendo com clareza apenas aquilo que eu trago perto o suficiente para querer ver, mantenho a minha cara enfiada num livro para tampar todos esses egos inflamados demais para perceber o quanto podem arruinar a visão de dias já tão difíceis, deixo em segundo plano e desfocado da minha retina o enfoque desses assuntos paralelamente idiotas e pouco relevantes no dia-a-dia de uma pessoa já tão idiotizada, deixo essas flechas lançadas criarem morada em olhos mais dispostos a receber ataques de "cores". Eu fico com a neblina, é meio dia, mas dentro de mim é sempre fim tarde nublada.

E eu sei muito bem que é bem provável que o tempo quebre a minha resistência de agora e me mostre uma necessidade que hoje eu não vejo, talvez daqui há alguns anos eu me disponha a ver o que agora eu nego, mas por enquanto eu mantenho apenas meus dois olhos a serviço da minha visão, abertos, fechados, revirados, sem subterfúgios...


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