"Quem não chora não mama"

7 anos de idade, eu me lembro que estava sentada na área da casa de uma tia enrolada num cobertor, fazia frio, mas eu insistia em ficar do lado de fora olhando os filhotinhos recém nascidos da cachorra no quintal. A mãe dos cachorros estava distraída comendo sua ração quando os filhotinhos começaram o berreiro, ela largou a comida dela e foi alimentá-los, um deles estava no cantinho do pano longe dos irmãos, a cachorra se deitou entre os que estavam chorando e os alimentou deixando o que estava mais longe lá olhando de "olho comprido" e voltou para sua ração. Perguntei para minha tia por que a cachorra não foi até o que estava quietinho, ele parecia com fome também, ela me olhou com ar de reprovação e me respondeu com uma das frases que mais marcaram a minha infância, curta e grossa, "minha filha, quem não chora não mama", simples assim. Quando minha tia se virou e foi para dentro peguei o filhotinho que não tinha chorado e levei ele para cachorra dar de mamar quando ela deitou, ela não viu nos olhinhos dele que ele estava com fome, eu vi, respondi para ele baixinho, "quem não chora mama sim".

Mas na maioria das vezes, eu lamento dizer, quem não chora não mama mesmo! Eu vi, mas quase ninguém vê, na maioria das vezes a vida é uma questão de saber pedir. Você precisa falar, as pessoas em geral não leem olhares, não entendem subentendidos, não sentem gestos. Muito raramente alguém vai olhar nos seus olhos e saber o que você quer. Tem que chorar, tem que chorar alto, tem que falar, "olha eu quero isso e quero assim", "eu tô com fome", "eu tenho frio", "eu preciso de carinho". Não existem adivinhos, ninguém sabe ler mentes, o ser humano não é tão desenvolvido assim, nós somos tipo os cachorrinhos mesmo, se não fala passa fome, não sobrevive. Se você não me contar que você gosta quando eu estou perto, como vou saber para poder ficar um pouco mais? Se eu não dizer que não gosto do seu jeito de me dizer o que fazer, como você vai parar de fazê-lo? Se eu não te contar o quanto você me faz falta, como você vai voltar mais rápido? Se eu não reclamar você mais perto, como você vai diminuir essa distância?

"Quem não chora não mama", você passou as mãos pelas minhas costas, eu quis puxar sua cintura e prender sua atenção, falar baixinho no seu ouvido que queria mais, passei vontade por que sou covarde. Eu olhei na sua direção e prendi o fôlego querendo contar que a música que estava tocando dizia muito bem sobre as vontades do meu coração, outra vez silêncio, fui para casa engasgada. Sua mão tão perto da minha, tão distante da minha. Eu não choro mesmo!!! Nunca soube requerer atenção, sempre fiquei em silêncio tentando dizer com meus olhos, com meus gestos, do meu jeito o que precisava ser dito, gritado, esgoelado, gaguejado, SENTENCIADO. Eu sempre achei melhor ficar no meu canto e não incomodar, esperar alguém olhar e perceber que tenho fome também, sou covarde, covardes passam fome.

Meus olhos permanecem gritando, eu espero que um dia você escute: ESTOU COM FOME, FOME DE PRESENÇA!!!


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