Olhos antigos

As coisas mudam as coisas realmente mudam, e mudam as pessoas junto com elas. Mudou a perspectiva com que meus olhos percebiam os rostos, coloquei uns óculos e os detalhes ficaram bem nítidos. As circunstâncias me obrigaram  a "abrir" mais os olhos, "apurar" minha visão, vi todas as rachaduras da parede, a precariedade dos moveis, a necessidade incontestável de reformas, de ajustes e de jogar fora. Tanto espaço usado de forma inútil, tanta coisa inútil ocupando espaço precioso.

Mas retrocedendo, é mesmo inútil? Inútil não é uma palavra invariável, na verdade ela varia muito e em muitos casos é aplicada errada porque precisa de complemento, eu preciso perguntar: É inútil pra quem? Será que é inútil pra mim mesma ou para os outros? A necessidade de mudança é minha mesmo ou é o incomodo que venho causando nos outros que me incomoda? Perder-me na linha tênue entre o que é realmente meu e o que me foi imposto ou forçado repetitivamente goela a baixo é muito fácil.

Sendo sincera, sinto falta da obscuridade dos meus olhos antigos, sinto falta de não ver com clareza e nessa de não ver poder inventar o que eu quiser, sinto falta da ingenuidade de acreditar no que meus olhos veem, de ver beleza nos lugares mais insípidos e improváveis, sinto saudade dos meus passos descuidados, saudade de não antever o perigo, de ir olhar o barulho no meio da madrugada ao invés de fugir e me preparar para invasão. Poderia ser uma borboleta tentando abrir espaço pra sair do casulo e voar. Vai que é alguém perdido tentando se encontrar?

Nesses dias em que o sol não vem, eu tiro os óculos e volto a ver da minha forma infantil, volto a acreditar por um minuto ou dois, por uma hora, saio pelas ruas e escrevo versos fora de rima e sem beleza métrica, beijo a perfeição que o imperfeito tem, daquilo que a mim não faz necessidade ou sentido algum, mas ainda assim, me é caro, me é raro, justamente por isso, por não precisar, eu preciso.



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