100 cortes!

Não gosto de nada que corte. Essas coisas cortantes me machucam antes mesmo de me atingir. Não gosto de facas grandes, fico olhando com a sensação de que elas vão se levantar sozinhas e cortar minhas mãos me impedindo o toque, cortar meus pés roubando o pouco equilíbrio que tenho. Chegar e arrancar minha língua pra que eu pare de picotar as palavras, tirar de mim o coração já tão fragmentado que possuo.


“Facas” não são justas, elas interrompem. Interrompem a pele/papel/plástico/pano/palavras em seu percurso ao outro lado. Interrompem as ideias que esforçadamente eu tento organizar em minha mente. Interrompem minha respiração só de estarem ali, tão perto. Interrompem os passos que programei as conversas que ensaiei os abraços que eu guardei... Elas cortam e sempre parece que fica a parte menos importante, a menos interessante, aquela que eu não consigo lidar, fica aquele pedaço aberto que eu nunca posso remediar, eu só escondo.


E no fundo, eu acredito que talvez o meu pânico por coisas que cortam seja exatamente por eu ter muitas partes que precisam ser polidas, lapidadas, extirpadas pra que eu possa ser inteira. Por que sempre há um pedaço que não cabe mais no todo. Um pedaço de memoria, um pedaço de adeus, um pedaço de palavra, um pedaço de desejo, um pedaço de companhia, um pedaço de saudade, um pedaço de mim... Eu finjo que não me importo, mas eu me importo sim!


Comentários

  1. Muito bom! Ora pensamos no todo que somos, ora fragmentamos a nós mesmos, na tentativa de encontrarmos a essência de ser.

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