A DOR NOS OLHOS MEUS.

Meus olhos reclamam. Eles reclamam da falta de descanso, da falta de sono. Reclamam do excesso de uso, do excesso de livros, do excesso daquilo que vejo e não posso alcançar. Prezo muito meus olhos, minha visão. Admiro a beleza das cores, a beleza das construções, a beleza dos rostos, a beleza dos traços, das palavras, das imagens na tela.


Mas, confidencio, eu trocaria minha visão pelo tato, mãos desenhando estradas no meio do meu nada. Eu trocaria minha visão pela audição, sussurros nos meus ouvidos que não firam o meu coração. Trocaria pelo olfato, o cheiro doce de saudade matada, de presença esperada que enfim chegou. E, finalmente, eu trocaria minha visão pelo paladar, o gosto de plenitude encostando nos meus lábios, o sabor dominador que enche minha boca de água. Eu fecho os olhos para as melhores sensações.


Então eu peço, olhos meus não reclamem tanto, por favor. Meus excessos veem por eu não me utilizar dos outros sentidos devidamente. Portanto, perdoem a água na minha boca secando meu globo ocular, perdoem a vacilação dos meus tímpanos difundindo a imagem na minha retina, perdoem a provocação do meu olfato inebriando aquilo que vejo e, perdoe também a minha língua afiada ansiando por algo distante demais do seu alcance. Por que tudo que meus sentidos desejam é fecha-los para sentir...


Comentários

  1. O melhor!!! Fechando os olhos pra aplaudir.

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  2. E talvez possamos usar aquela velha frase clichê: "o que os olhos não vêem, o coração não sente".

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