Desajustada, demasiado desajustada

O telefone está tocando de novo. Eu não preciso olhar pra saber que é você. É você me dizendo mais uma vez o quanto eu sou insensível, que eu passo essa imagem de delicadeza e necessidade de cuidado, mas na verdade eu sou fria, dura e má, que eu abro a porta e encanto só pra depois batê-la na cara das pessoas e dizer que não podem entrar. Que embora eu abrace de forma tão doce que parece que eu preciso de colo eu entro na sua casa pedindo pra você deixar a porta aberta por que eu estou sempre pronta para partir. E é isso que a maioria das pessoas dizem que eu sou, partida. Até as minhas palavras, elas fogem da minha boca quando eu falo, ficam pela metade assim como eu. Eu quero dizer logo e eu quero me entendam logo para que eu possa ir embora mais rápido.

Mas eu sou desastrada e tropeço nas minhas palavras tanto quanto eu tropeço com os meus pés, vivo tropeçando em tudo, batendo em tudo, deixando cair e na minha pressa às vezes nem paro para pegar, vou deixando pedacinhos pra trás. Eu nem sequer paro para saber se eu machuquei. Chegou um ponto que eu já não sinto dor, até alguém pegar no meu braço e perguntar onde foi que fiz aquilo, ou de onde vem uma determinada cicatriz. Eu respiro fundo e digo que não sei, se eu desse moral para minhas feridas ou parasse para reparar os danos passaria minha vida fazendo curativos ou procurando explicações.

E nessa minha pressa eu acabo não fazendo quase nada, por que minha mente viaja tão depressa que eu não consigo falar tudo que eu quero de forma pausada, me confundo, vou soltando partes que nem sempre fazem sentido, por que enquanto eu falo disso minha cabeça já seguiu uma nova direção. Não consigo me concentrar pra estudar para uma prova se estou ansiosa para que algo aconteça ou pare de acontecer, não presto total atenção no que as pessoas dizem e estou constantemente perguntando “o que?”. Não é maldade, é que eu não consigo parar, porque se eu parar eu vou ter que sentir.

Eu leio tantos livros, mas não escrevo bem porque não me detenho na escrita, me perco na historia e corro pelas páginas, atropelando as pontuações e seguindo ao meu modo, submergida num outro mundo que alivie o meu, ansiosa pelo próximo ato, pelo final. Porque tudo acaba, tudo vai embora e sempre deixa uma confusão ou um vazio dentro de mim. E faz muito tempo é assim, eu não sei ficar, embora muitas vezes eu tente pertencer a algum “lugar”, nunca encaixa, sou sempre a quinta roda, sempre na margem, na saída de emergência, pés calçados, roupa demais. Tanta coisa desnecessária na mochila/bolsa/quarto/bolso/coração/vida.

E ao mesmo tempo eu sou tão vazia que preciso ir embora por não ter nada a oferecer, ou na verdade não ter condições ou não saber oferecer o que tenho, por que não posso tirar a minha roupa sem mostrar minhas cicatrizes. E eu não quero que vejam meus olhos exaustos sem nenhuma “maquiagem”. E só pra constar, quando eu fico muito tempo em silêncio não estou ignorando nada, geralmente é simplesmente por não saber como falar, ou ter medo de tropeçar demais pra me explicar...

Comentários

  1. Oi, Thattiely! Seria intromissão minha expressar uma opinião com relação a você caso eu lhe observasse à distância. Mas como você publicou sua intimidade, sinto-me no direito de reparar. Talvez você seja muito rigorosa com você. Talvez. Com tempo, deixe sua impressão no meu http://jefhcardoso.blogspot.com Ficarei honrado.

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